Visita à Unidade Básica de Saúde Caic– Esteio

A visita foi realizada no dia 13/08, com uma certa confusão. Nosso contato, segundo nos foi dito, nos esperou apenas até as duas horas, horário que seria impossível estar lá, devido à combinação de que sairíamos da Psicologia à 1:30. Chegamos lá em torno das 3 e nos dirigimos à prefeitura, como orientados, sem haver nenhuma indicação mais clara do local ou serviço. Por fim, ao telefonar para nosso contato designado, ela nos orientou para que nos dirigíssemos até a Secretaria de Saúde, no prédio ao lado, e falássemos com seu colega, Gilson, supervisor das equipes de EsF em Esteio. Após uma demora, ele nos recebeu e se prontificou a levar-nos até uma UBS para a visita. Devido à forte chuva e a uma confusão com o motorista, houve um novo atraso que, somado à distância do serviço, fez com que chegássemos no mesmo só às quatro da tarde.

Sobre a rede de Esteio, Gilson conta que há 100% de cobertura nos moldes de UBS tradicionais, e 64% pelas EsF, havendo 13 equipes no município. A UBS que visitamos é a Caic, ficando em uma das zonas de maior fragilidade social da cidade, segundo a enfermeira que nos recebeu junto com o gestor. Gilson nos apontou que escolheu essa UBS especificamente por acreditar que é a que melhor funciona nos moldes do Programa de Saúde da Família e com a lógica da Clínica Ampliada. A UBS Caic conta com 3 Equipes de Saúde da Familia, sendo responsável por uma população de 6400 pessoas, e era uma UBS nos moldes tradicionais antes da implantação do Programa, por isso conta, além de médicos da família, com ginecologista e pediatra, além da equipe padrão de EsF (médico da família, enfermeiro/a, técnico de enfermagem e ACSs). A UBS Caic também recebe estudantes de residência de medicina, enfermagem, psicologia, fonoaudiologia, farmácia, e agora receberão de nutrição e fisioterapia.

Chegando no serviço, nos deparamos com a ampla sala de espera, com alguns quadros informativos. O ambiente também estava com alguns balões e decorações rosas para o mês de prevenção do câncer de mama. A primeira menção de Gilson é ao quadro de consultas, um informativo bastante chamativo em um dos lados da sala de espera que lista todas as consultas realizadas no mês por especialidade e aponta também os números de faltas de pacientes. Ao mostrá-lo, Gilson afirma que foi uma iniciativa pensada pela equipe, e que acha importante, por ter sido enfermeiro de ponta e saber que a maior reclamação dos usuários é a falta de consultas, enquanto o número de faltas é também muito alto, como indicado pelas estatísticas. O segundo quadro ficava ao lado do guichê de recepção e listava todos os serviços disponíveis na UBS.

Após a sala de espera, antes de passarmos para o grande corredor onde estão localizados os consultórios e demais salas, somos levados a uma pequena sala, com uma mesa, com computador, e duas cadeiras. Gilson nos conta, junto com a enfermeira que estava situada ali no momento, que aquela é a sala de acolhimento, uma iniciativa que os dois acreditam funcionar muito bem no serviço, e ser de difícil implantação, ainda não muito bem disseminada em outras unidades. Segundo a enfermeira que estava no acolhimento, a ideia é que todos pacientes passem por ali ao procurarem o serviço, mesmo que estejam sem ficha ou consulta marcada, e o objetivo é “ouvir a todos”, fornecer uma primeira escuta que possa ajudar o usuário a organizar ou expressar melhor sua demanda ao serviço de saúde.

Após esse momento, conhecemos o resto da unidade, que tem uma estrutura bastante espaçosa e organizada, em nossa opinião. Notamos que aquele local foi aberto recentemente, em Abril de 2014, sendo a UBS localizada em outra sede anteriormente. Gilson nos mostra as diversas salas, consultórios, sala de nebulização, vacinação e outros serviços, copas, vestiários, salas administrativas, a grande sala onde ficam todos os agentes comunitários de saúde, a sala de reuniões, entre outras, até nos levar para uma sala e chamar uma enfermeira para conversar conosco sobre o serviço.

O primeiro serviço enfatizado pela funcionária é, novamente, o acolhimento. Ela aponta que antes era apenas realizada uma triagem, onde eram verificados os sinais do paciente, ele era medicado e então ia embora e só retornava no dia de marcar consulta. Na proposta do acolhimento, é necessário que haja uma escuta de todo paciente, que inclusive pode ser feita por qualquer (e por todos) profissionais da equipe da UBS. Segundo ela, tudo que alguns pacientes precisam é que alguém se disponha e pergunte a eles “o que o senhor precisa?”. Diz que muitos chegam a UBS querendo um atendimento com um médico, e costumavam ir embora quando informados da impossibilidade de conseguir uma consulta no dia. Porém, muitas dessas demandas poderiam ser resolvidas por diversos outros profissionais, não precisando do médico. “A postura é que faz a diferença”, diz, e continua: “a cabeça do paciente ainda é muito médico-centrada”.

Outro fator enfatizado pela funcionária foi o da equidade, um dos princípios do SUS, e ela salientou a importância de, a partir de uma escuta que acolha cada sujeito em sua singularidade, poder oferecer tratamentos diferenciados aos casos nos quais isso for necessário. Porém, isso foi apontado como um desafio e cuja realização ainda encontra muita dificuldade. A partir desse tópico, perguntamos sobre o matriciamento e a relação da UBS com o NASF local. Segundo o gestor e a funcionária, há uma boa interação com o Nasf, cuja equipe vai até a UBS uma vez por semana para discutir casos e fazer visitas e atendimentos quando necessário. Porém, eles apontaram que há apenas dois psicólogos na equipe de apoio, e que isso não é o suficiente, devido à alta demanda que, são repassados, assim, apenas os casos mais graves à equipe do NASF

Também foi salientado que seria muito útil a presença de um psicólogo ou profissional de saúde mental nas Equipes de Saúde da Família, possuindo um amplo campo de trabalho. Dentre as atividades que seria possível realizar no campo psi, foram apontados o atendimento em grupos, interconsultas para casos que são acompanhados por outros profissionais e o próprio gerenciamento ou atendimento da equipe. A enfermeira apontou a loucura como uma questão social, afirmando que isso é muito facilmente observável na UBS, devido à situação socioeconômica da população atendida, em geral muito pobre. Quando perguntada sobre o perfil dos usuários, ela apontou um alto número de jovens e crianças, com poucos idosos, euma incidência alta de subemprego e vulnerabilidade social, com muitas famílias que recebem o Bolsa Família, e uma carência de ações de planejamento familiar. Além disso, um aumento recente do tráfico de drogas na região tem dificultado o trabalho do serviço.

Sobre os serviços oferecidos na UBS, foram apontadas a importância das ações dos Agentes Comunitários de Saúde, que fazem as VDs, a busca ativa e acompanham de perto os casos de pacientes crônicos, gestantes e pais com bebês. Afirmou que estão também antecipando um novo protocolo em relação à atuação dos enfermeiros, que deve prover esses profissionais com maior autonomia. Além disso, nos contou que a UBS oferece diversos grupos, de gestantes, do HiperDia, de controle de peso, de idosos, para estudantes, de planejamento familiar, um grupo recente de caminhada e que há a demanda para a criação de um grupo para pacientes com asma.

Ao perguntarmos à enfermeira sobre a relação da equipe local com a gestão (Gilson se retirou para fazer uma ligação e deixar que a pergunta fosse respondida), ela informou que é muito próxima dos dois gestores, Flavia, que é responsável por todas as UBS de Esteio, e Gilson, supervisor das EsFs, tendo ele no WhatsApp e conversando sempre que necessário. Além disso, contou que os dois comparecem para uma reunião mensal com a equipe do Caic, estando muito disponíveis. Conhece também Ana Paula, a secretária de saúde, e disse que “se eu for falar com ela, ela sabe quem eu sou”. Comparou isso com Porto Alegre, onde trabalhou por muitos anos em diversas UBS, e disse que essa proximidade é uma vantagem de municípios menores.

Sobre a participação da comunidade no serviço, em Esteio não há conselhos locais, apenas o municipal, de saúde e do idoso. A enfermeira também afirmou que há uma relação estreita com o CRAS local, mas que não há muitos contatos com outros serviços, incluindo escolas. Há algumas iniciativas com as creches locais, principalmente partindo da odontologia e da nutrição, que vão fazer atividades de prevenção nesses locais.

Ao final da entrevista, abordou novamente as demandas em saúde mental. Falou que, no geral, se relacionam ao meio social complicado e uma dificuldade de enfrentamento da situação socioeconômica por parte dos usuários, que causa uma grande fragilidade. Diante desses casos, e pensando no conceito ampliado de saúde, afirmou ser muito difícil qualquer intervenção, devido a uma rejeição por parte desses usuários, inclusive ao trabalho em grupos. “Não sei o que fazer”, disse, caracterizando o trabalho com essas populações como muito difícil. Salientou a importância do NASF no apoio ao serviço nesses casos, mas disse que com a equipe de matriciamento comparecendo apenas uma vez por mês e tendo apenas dois psicólogos para se dividir entre os casos das dez EsF que eles apoiam, não há como suprir a demanda. Disse que esses casos são muito frequentes no acolhimento, e que por vezes eles acabam nem estendendo a conversa, percebendo que há ali uma fragilidade. “Dá para ver que eles estão quase chorando”, e enquanto isso, há uma série de outras demandas e casos a serem tratados ainda no mesmo dia, dificultando que a escuta de fato seja de qualidade.

Após a entrevista, fomos apresentados ao sistema de prontuário eletrônico utilizado em Esteio. Segundo os funcionários, todas as UBS o utilizam, abandonando o uso de papel, e lá constam não só a ficha de todos os pacientes, como a agenda dos profissionais de todas as UBS, os grupos disponibilizados em todos os serviços, e é possível encaminhar ou marcar consultas por ali, sendo o acesso ao sistema possível em qualquer lugar do estado, facilitando o acompanhamento de casos a longo prazo. Após isso, esperamos novamente o motorista, conversando um pouco com Gilson sobre as diferenças em seu trabalho como “enfermeiro de ponta” e o papel de gestor que exerce agora, e então voltamos para o centro de Esteio e, de lá, para Porto Alegre.

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Cabeçadas à parte

Via Diário Digital, em 1/2/2011:

Hungria: Professor que deu cabeçada em aluno volta a dar aulas

Um professor húngaro que agrediu com uma cabeçada um aluno que estava a perturbar a aula foi autorizado a voltar a leccionar após receber fortes manifestações de apoio, incluindo dos pais do aluno.

O professor de História Attila Domotor, de 42 anos, agrediu o estudante após este interroper repetidamente a aula numa escola em Orkeny, na Hungria.

O professor foi suspenso após um vídeo do incidente, filmado por um aluno, ter surgido no YouTube.

No entanto, fortes manifestações de apoio à atitude do professor, incluindo por parte dos pais do aluno agredido, levaram a que este fosse autorizado a regressar ao trabalho.

“Temos tido muitos problemas com o nosso filho. Finalmente alguém mostrou-lhe que ele não é o centro do universo”, afirmou o pai do rapaz.

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Belezoca que agora fazer Zidane no aluno merece um “bem feito!”. Ok, nenhum aluno é santo, mas o professor não precisa dar uma rajada de AK-47 pro outro se aquietar. Garanto que com o professor de matemática não aconteceria (a-rram).


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